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Banda Ave Sangria recebe anistia 50 anos após censura a disco pela ditadura militar

27 de mar.
2 min de leitura

27.mar.2026 às 16h49



"Apesar de cantar na música "O Pirata" que sua guerra "nunca, nunca vai ter fim", a banda pernambucana Ave Sangria parece, por fim, colocar um ponto final na luta.

A Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos aprovou nesta quinta-feira (26) a anistia à banda. O disco de estreia do grupo, lançado em 1974, foi censurado pela ditadura militar."

Os integrantes da banda pernambucana de rock psicodélico Ave Sangria - Flora Negri/Divulgação


A decisão marca um gesto formal do Estado brasileiro, que pediu desculpas aos músicos e estabeleceu o pagamento de uma pensão mensal e vitalícia de R$ 2 mil. O valor retroativo ainda será calculado.

"Lembrando que em Estados autoritários a arte também também é perseguida, porque ela expressa um espírito — e no caso de Pernambuco, um espírito contestador do regime autoritário" diz o conselheiro Manoel Severino Moraes de Almeida, integrante do atual Conselho da Comissão de Anistia. "O grupo Ave Sangria representa no dia de hoje a possibilidade de voltarmos ao passado, trazendo para o futuro um recado."

A medida busca reparar a interrupção forçada da carreira da banda, então em ascensão, que acabou desarticulada.


"Nós não queremos que que se repita no Brasil uma história como essa de jovens talentosos que se organizavam em torno de uma agenda com cultural, que queriam construir um diálogo entre ritmos, apresentar uma nova forma de manifestação política e artística e tiveram sua liberdade ameaçada", diz o conselheiro.

A canção "Seu Waldir" tornou-se o principal símbolo da censura enfrentada pela banda. A música ganhou repercussão nas rádios até ser alvo de uma campanha que a acusava de insinuar conteúdo homossexual. A reação resultou na retirada do disco de circulação e no silenciamento do grupo. A música, no entanto, foi escrita pelo vocalista para ser interpretada por Marília Pêra, em uma peça de teatro.

A Ave Sangria retomou as atividades e lançou, em 2019, o álbum "Vendavais".


Marco Polo e Almir de Oliveira, membros da formação original da banda, acompanharam a votação em Brasília por transmissão no Memorial da Democracia, no Sítio Trindade, no Recife. Segundo Polo, a escolha do lugar não foi à toa. Era lá que a banda ensaiava e onde o Movimento de Cultura Popular nasceu.

Para Polo, a decisão também tem peso simbólico. "Foi uma emoção muito grande e uma sensação de alívio. O Estado reconhece que errou e tenta reparar. Cinquenta anos depois, ainda chega em boa hora — estamos vivos e seguimos batalhando pela música, pela liberdade e pela democracia", disse.


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